10/08/2026

Polidez.

Admiro os que não sentem o mundo, os que estão imunes às dores do mundo. 

Admiro os destemidos que acordam no automático,  os que não têm tempo para pensar. 

Admiro os que não  aceitam suas almas.

Eles são corajosos.

- Eu sou covarde.

Tenho dormido pouco, comido mal, pensado muito, sentindo em demasia. 

Tenho sofrido amarguras que não foram feitos meus, das amarguras que fabriquei, muitas vieram defeituosas, rotas e pateticamente rígidas.

-Pergunto-me há quantos anos e há quanto tempo. Eu não respondo - eu sou covarde.

Não uso muitas máscaras, pouco poli minha autoimagem. E pessoas no automático, as pessoas corajosas, elas estão bem vestidas, com vestes de primeira mão, um rosto e corpo que não são delas,  não gostam do que é feio, do que não é polido e meticulosamente criado, adaptado, configurado, dissimulado para lhe cair bem aos olhos.

Vivem do que é estético, Ao que preenche os buracos de seus egos.

Falar em cegueira metafórica seria imoral.

 -E eu sou covarde!

Corajosos são os canalhas por vocação, aceitam jogar o jogo, dançar a dança, beber a bebida.

Anestesiam-se com o que lhe oferecem, não resmungam, não são como eu, covarde.


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