Admiro os destemidos que acordam no automático, os que não têm tempo para pensar.
Admiro os que não aceitam suas almas.
Eles são corajosos.
- Eu sou covarde.
Tenho dormido pouco, comido mal, pensado muito, sentindo em demasia.
Tenho sofrido amarguras que não foram feitos meus, das amarguras que fabriquei, muitas vieram defeituosas, rotas e pateticamente rígidas.
-Pergunto-me há quantos anos e há quanto tempo. Eu não respondo - eu sou covarde.
Não uso muitas máscaras, pouco poli minha autoimagem. E pessoas no automático, as pessoas corajosas, elas estão bem vestidas, com vestes de primeira mão, um rosto e corpo que não são delas, não gostam do que é feio, do que não é polido e meticulosamente criado, adaptado, configurado, dissimulado para lhe cair bem aos olhos.
Vivem do que é estético, Ao que preenche os buracos de seus egos.
Falar em cegueira metafórica seria imoral.
-E eu sou covarde!
Corajosos são os canalhas por vocação, aceitam jogar o jogo, dançar a dança, beber a bebida.
Anestesiam-se com o que lhe oferecem, não resmungam, não são como eu, covarde.
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